domingo, 8 de março de 2009

QUAL O PAPEL DA UNIVERSIDADE NA NOVA “DITADURA” ?

O que ocorre na universidade, levando ao sentimento de perda de qualidade, é a perda da capacidade da academia responder o que dela espera a sociedade. No momento de crise, a sociedade cria problemas de dimensões tão diferentes, em uma velocidade tão crescente, que a universidade não consegue responder. A crise está exigindo a formulação de novas perguntas, enquanto a universidade continua se dedicando a encontrar respostas velhas. Mas a comunidade tem consciência destas limitações; não se contenta e chama de perda de qualidade à perda de funcionalidade do seu produto.
A crise da universidade decorre, em muitos casos, desta perda de capacidade para definir corretamente os problemas aos quais a formação e as pesquisas devem servir. Continua concentrada no que se chama o problema-da-universidade, sem observar quais deveriam ser os problemas-para-a-universidade.
O ensino universitário tem-se dado sobretudo pela transmissão das certezas. As dúvidas parecem ser desenvolvidas no exterior, e penetram na universidade depois de solucionadas em uma nova certeza que os professores transmitem aos alunos, e estes mostram ter aprendido, repetindo-a nas provas.
Se o papel de cada universitário é aventurar-se na criação de novos conhecimentos, seu compromisso diário deve ser com a aventura de criar uma nova universidade. (...) Em uma instituição de idéias, o ponto de partida para sua reformulação está em ter uma ou diversas idéias alternativas quanto ao projeto, a forma, a estrutura, aos métodos de universidades. O segundo passo é ter um ambiente aberto para debater tais idéias.
Os caminhos percorridos pelo processo civilizatório nos últimos dois séculos levaram a humanidade a identificar seu propósito com a utilização de técnicas, seu destino com o processo de crescimento econômico, seu objetivo com o consumo. Esta modificação aprisionou a universidade. Ela optou pelo conhecimento isolado, passou a organizar-se em unidades eficientes na produção do saber, fechada em departamentos especializados. O universitário perdeu a dimensão da humanidade, e o seu saber perdeu a globalidade do humanismo. O conhecimento técnico passou a ser, sobretudo meio para o desenvolvimento das técnicas. Imaginam que repetir livros e idéias do exterior compõe em si uma universalidade. Caem no complexo de inferioridade de achar que são incapazes de fazer avançar o conhecimento porque esta é a tarefa de seus modelos estrangeiros e não há como encontrar dentro de seus países novos objetos de estudo, métodos e potencial criativo. Tornam-se duplamente “provincianas”: pela limitação histórica e pela imitação. Assumem-se bárbaras ao tentarem imitar os que consideram desenvolvidos; tornam-se não-humanistas ao identificarem desenvolvidos com civilizados. Nesse sentido, o que tenho observado nos últimos anos, é uma certa ausência de debates dentro da UFES no que concerne aos mais variados assuntos, tanto de interesse da sociedade quanto da própria comunidade acadêmica. Talvez essas falhas que existem dentro da UFES ocorram pelo fato de ela se apoiar em algo que ela tanto se orgulha, que é o tripé ENSINO, PESQUISA e EXTENSÃO. Digo isso porque creio que um desses elementos desse tripé deve ser trocado, neste caso me refiro ao elemento ENSINO. Creio que deveríamos substitui-lo, não só na acepção da palavra, mas no que diz respeito a sua aplicação prática. Creio que o elemento EDUCAÇÃO seja mais eficiente na sustentação desse tripé, visto que a educação possui uma concepção mais filosófica, ou seja, de concepção de homem, de mundo e de natureza, enquanto que o elemento ENSINO possui um caráter mais técnico e metodológico, ou seja, vazio de conteúdo Humanista. Apesar de ter conhecido pouco o professor Bodou (ex-prof. do Dept° de Geografia), sinto uma tremenda saudade de suas polêmicas, de seu discurso em prol de uma cidadania digna, em defesa da ciência geográfica e, que não se calava perante aquilo que não concordava e criando novas formas de se pensar a Geografia. É uma pena que ele tenha partido e, que sua herança genética tenha ficado apenas no sobrenome e não nas atitudes.
Confirmando o que foi dito anteriormente, observamos a nossa Universidade implantar nos últimos meses um forte esquema/sistema de segurança dentro do campus universitário. Primeiro veio a guarda terceirizada, que se diziam ser vigilantes do patrimônio; depois vieram as câmeras de alta resolução, e depois o armamento dos vigilantes, e tudo isso sem nenhum tipo de debate com a comunidade acadêmica, sendo uma decisão tomada de cima para baixo, comprovando o sentido anti-democrático da questão. Observa-se ai, uma inversão de papéis, já que universidade esta copiando a ineficiente “indústria” do medo que vem se instalando principalmente nas grandes cidades, quando na verdade era a universidade que deveria propor diferentes soluções para a problemática da violência.
Sei que na universidade existem pessoas que são conscientes da ineficiência desses modelos de controle da violência, pois nos embates entre o poder e a violência, eles se territorializam, mas seus limites são sempre instáveis, com áreas de influência deslizando sobre o espaço das ruas, dos becos e das praças. A criação dessas identidades territoriais é uma necessidade mais funcional do que efetiva, promovendo uma disputa de “pontos” (de tráfico, de uso de drogas, de roubos), de acordo com o interesse dos sujeitos envolvidos. O próprio Foucalt, em 1982, já nos falava da noção de biopoder, que é fundamental para entender o problema da violência, pois interessa ao poder não o extermínio, mas o controle dos homens, pois o que importa é gerir suas ações, de modo a utiliza-los ao máximo. Por isso questiono o uso dessas câmeras, na medida em que me convenço de que elas tem uma função muito mais de controlar a territorialidade dos estudantes e do movimento estudantil. Até que ponto poderei exercer minha territorialidade enquanto indivíduo livre? Ou vamos usar as imagens captadas pelas câmeras como forma de contribuição ao apelo da indústria midiática de nossos meios de comunicação?, e assim, fomentar a indústria do medo, nos obrigando a adotar medidas que nos tragam “sensação de segurança”, que é diferente da verdadeira segurança (in situ). Uma simples câmera no 9º andar de um prédio não é apenas uma simples câmera posicionada para observar as pessoas pois, dependendo da sua localização, ela consegue observar o decote de uma roupa mais justa, ou o que uma pessoa carrega na mão, fazendo com que o mais simples movimento de um indivíduo seja monitorado, pautando seu comportamento em algo que o vigia. A sétima arte (o cinema) já nos mostrou aonde pode chegar o controle sobre as pessoas como o mostrou o filme 1984 de George Orwel. Até quando vamos imitar o modelo do Panóptico de Jeremy Benthan* que também é citado pelo Foucalt.
A instalação desse tipo de segurança não se justifica, mesmo que algumas coisas estranhas estejam ocorrendo na UFES, como o caso do sumiço dos monitores de LCD do LIEG e sem nenhum sinal de arrombamento, o que é mais estranho ainda. Nas últimas semanas alguns estudantes da UFES vem sofrendo abordagens inadequadas por parte dos seguranças, que se mostram totalmente despreparados para portarem uma arma e, principalmente em lhe dar com seres humanos. Independente desses estudantes serem consumidores de cannabis sativum (popularmente conhecida como maconha, racha côco, manga rosa, bigode de Sarney) vai depender da procedência, acima de tudo são seres humanos e, de nenhuma forma podem ser ameaçados de levar tapa na cara nem ser chamados de vagabundos, pois são seres humanos.
Será que já não basta o descaso da universidade com seus estudantes (que são ou pelo menos deveriam ser a alma da universidade), principalmente no que diz respeito a assistência estudantil, que é uma esmola e não uma assistência. E ainda por cima, essa universidade tenta criminalizar o movimento estudantil jogando o mesmo contra os estudantes que recebem essa esmola (CONEXÔES SABERES), ou seria uma “cala a boca” para os estudantes pararem de fazer manifestações e assim manter a “ordem estabelecida”. E ainda tem o caso do estudante de Ciências Contábeis que faleceu dentro do campus por falta de estrutura para atender certas demandas. Vemos a universidade construir vários prédios em nosso campus, alterando a sua estrutura paisagística e ai eu questiono: Por que não usar a verba que está sendo usada para construir esses novos prédios para reestruturar a universidade que está sucateada, com laboratórios sem equipamentos, funcionários despreparados e que trabalham a hora que querem, professores que fingem trabalhar, reproduzindo antigas formas de pensamento.

* Segundo Foucault o Panóptico despertou interesse, pelo facto de ser aplicável a muitos domínios diferentes. Não se tratava apenas de uma prisão. O Panóptico, é um princípio geral de construção, um dispositivo polivalente de vigilância, uma máquina óptica universal das concentrações humanas.

Assina esta carta: Rodrigo Huebra (CALGEO_UFES) (estou aberto a discussões e espero novas formas de comunicação entre as pessoas porque o destino dos “delatores” dentro da favela é a morte). Mas por favor esperem a fumaça abaixar.....

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